segunda-feira, 7 de setembro de 2009

PROGRAMA DE ÍNDIO

Dias desses meu marido escreveu no blog dele como gente sem vícios é chata. E é mesmo, mas pior do que não ter vícios é querer controlar os dos outros. Quero contar meu último programa de índio e vejam se não tenho razão...
Fomos convidados prum casamento fora de BH – fora mesmo, distante uns 600km pra mais. Nos juntamos a um casal de amigos e lá vamos nós, rumo à tal cerimônia, já que a noiva era filha de um chegado nosso por quem temos grande estima.
Preparamos as vestimentas com cuidado, e o amigo que foi conosco não se esqueceu nem da bota ninja que tem, daquelas “mandadas fazer por encomenda”, que tem um tipo de recheio dentro pra ele não ficar mais baixo que a esposa quando ela coloca salto alto. Tudo preparado, voamos na maior espectativa prum fim de semana promissor.
A alegria começou a degringolar na chegada da festa. Como o tempo está seco demais e há muito tempo nosso amigo não calçava a bota, ao descer do táxi a mardita descolou o solado inteiro, que nem boca de sapo. Eu, Walmir e a amiga descemos e ele voltou ao hotel pra trocar de sapato, contrariado por estar perdendo parte da festividade. Entrou no hotel em passos miúdos, pra que a recepcionista não visse a bota desbeiçada. O pior é que agindo assim ela deve ter pensando que ele tinha se borrado nas calças, num caminhar tão contido.
Voltou pra festa animado, de sapato trocado e a passos largos. Agora podia relaxar e a alegria de estar pisando firme se esvaiu com a notícia que demos logo que chegou – não seria servida nenhuma bebida alcoólica. A família do noivo é evangélica e só permitiria refris.
Gente do céu! Como assim? Teve uma hora em que voltei à minha infância, em que nas festas servia-se Ki-suco e ponche sem álcool. Como é que alguém em sã consciência tem a cara de pau de convidar e insistir na presença de pessoas como nós, chegados numa cachaça, pruma festa longe desse jeito, prá tomar refrigerante? Não dá pra acreditar, pois dá?
Agora o pior – se é que existe coisa pior que festa sem bebida: a cerimônia de fato. O pastor entrou e meu coração gelou. Meu marido não tem a menor paciência com pregação e tive medo de que saísse antes do final, mas que nada, ficou prestando a maior atenção em respeito ao chegado que nos convidou. Antes tivesse saído, gente, porque o que foi dito de tão cabeludo ficou engraçado.
Acreditem - pelo amor de Deus, não tô inventando - nas palavras do pastor (vou tentar lembrar com a maior precisão possível): “Fulano, você está recebendo algo divino – a noiva. O amor é coisa humana, então mesmo que o amor acabe o que é divino tem que ser mantido. Você tem o cajado nas mãos para guiar sua ovelha – de novo, a noiva. Quando um casal se une os dois deixam de ter os próprios desejos, e seus desejos passam a ser os do outro...”. E por aí foi.
No meu entendimento, falando rasgado, ele disse o seguinte: Rapaz, cê tá ferrado e a noiva também. Se você não manejar bem seu cajado sua ovelhinha divina sai do rumo, e nem que queira vai conseguir se livrar dela. Entendi errado? Além disso me senti uma cabrita muito rebelde, porque meu marido certamente não soube me dar uns bons corretivos com seu cajado.
Ô gente, quem merece viajar pra tão longe, comer mal e não beber, passar pelo vexame que meu amigo passou com a bota desbeiçada, pra ter que ir comemorar a viagem num restaurante depois da festa? Quem merece ouvir um sermão daquele?
Sugiro que os convites de casamento contenham mais detalhes daqui pra frente, porque quem quiser prestigiar pelo menos vai prevenido – leva nem que seja uma garrafa de vinho chapinha, pra rir do sermão e dançar descalço, sem sofrimento.
No fim das contas foi bom – meu lado Pollyana sempre acha o lado bom: antes e depois da fatídica festa reencontramos grandes amigos, assistimos ao jogo do Brasil detonando a Argentina , conversamos fiado, trocamos receitas de injeções, marcamos a inauguração de um fogão de lenha, tomamos todas no mercado, enfim, sobrevivemos. E bem.

3 comentários:

Wayne disse...

Cãndida, eu já passei por situação parecida aí pelos lados das Minas Gerais. E o fogão de lenha? Você tem algum projeto? WAyne

liliana disse...

Mas que casamentão este,heim? Se Luana estivesse lá, por baixo ela tinha sentado uma taça de ÁGUA na cabeça do pastor. Quanto ao seu amigo que ficou sem a sola da bota, quem manda casar com mulher alta, né não? Wayne não correria nunca este risco. Podia ir de tênis mesmo (tá na moda tênis com terno)que eu não chegaria nem no ombro dele. beijos querida

Dorinha disse...

Olá Cândida,
estou adorando passear pelo seu blog, eu e o Beto já lemos algumas historinhas, são ótimas...
Beijos saudosos e ótimo final de semana.
Dorinha