quarta-feira, 15 de setembro de 2010

AMERICANOS CUCARACHAS

Foi morar nos Estados Unidos 10 anos atrás, sonhando em juntar dólares e comprar uma casa no interior de Minas. Passou pelo México, atravessou o deserto à noite, ficou endividada por causa das despesas com a viagem, mas se ajeitou.

Conheceu um brasileiro que estava lá na mesma condição e deram de sonhar juntos. Tiveram duas filhas que nunca vieram ao Brasil. Receosos de não conseguir voltar foram ficando, juntando dinheiro, trabalhando e cuidando uns dos outros. Planejavam vir embora no próximo ano, pra férias definitivas em nosso adorável país.

Dias atrás a moça teve um AVC. Era velha não, nova, uns quarenta e poucos anos. Socorrida, teve que se submeter a uma cirurgia. Não resistiu.

Nenhum dos familiares ou amigos brasileiros era legalizado e a complicação só aumentou. Quem poderia aparecer e se responsabilizar pelo corpo sem correr o risco de ser deportado?

Deve ter sido o marido, não sei direito. Autorizou a doação de todos os órgãos e se perdeu na dor entre consolar as filhas e decidir se pegava todas as economias e providenciava o traslado do corpo vazio, oco, mas que ainda representava externamente o que foi a moça um dia.

Dez dias depois da morte, o velório de corpo presente vai acontecer em sua terra. A casa da mãe ficou cheia dos amigos e parentes chorando a espera, que aconteceu hoje. Não é nem de longe como a mãe pensava em reencontrar a filha depois de tantos anos, mas fez questão de que a trouxessem de volta, pra que pudesse se despedir.

O apego ao corpo físico é compreensível , mas será que justifica tanto tormento? Difícil julgar. Não seria menos traumático que as meninas de 6 e 8 anos, que nunca estiveram com os avós ou parentes que vivem no Brasil, continuassem por mais algum tempo onde estão desde que nasceram, e virem visitar a família aqui quando tivessem entendido a partida precoce da mãe? Como o viúvo, pai das meninas, vai conseguir sobreviver sem a esposa, sem casa, sem projetos concretos, vendo sua vida familiar virar de pontacabeça depois da tragédia?

Será que o fato de tantos americanos terem se beneficiado dos órgãos doados pela moça brasileira vai permitir a volta do marido e das filhas para concluírem o sonho interrompido naquele país?

Deus queira.

Um comentário:

Ministério disse...

Olá blogueiro,
É muito importante incentivar a doação de órgãos e conscientizar as pessoas sobre a importância deste gesto de solidariedade.
Para ser doador de órgãos não é preciso deixar nada por escrito. O passo principal é avisar a família sobre a vontade de doar. Os familiares devem se comprometer a autorizar a doação por escrito após a morte. Divulgue a ideia e salve vidas!
Para mais informações: comunicacao@saude.gov.br
Ministério da Saúde